Projeto de intercâmbio acadêmico Brasil-França Capes-Cofecub nº 611/08
TÃtulo: Crises e anátemas da modernidade filosófica: Spinoza e Nietzsche como sismos na metafÃsica da subjetividade
Spinoza e Nietzsche representam, cada um a seu modo, pedras de tropeço na marcha triunfal da racionalidade emergente na modernidade, tanto em seu apogeu, quanto no esgotamento de suas virtualidades. O projeto tem como objetivo aprofundar o estudo das relações entre esses dois pensadores, de um ponto de vista historiográfico e conceitual, assim como revisar a contribuição crÃtica de ambos para pensar os problemas e dilemas de nosso próprio tempo.
Data de 1878 a primeira vez que Nietzsche cita Spinoza, em Humano demasiado humano, a partir da leitura de uma introdução à Etica escrita por Hugo Ginsburg (de 1875). Nietzsche citará Spinoza muitas vezes ainda, até que, em 1881, escreve um cartão postal a seu amigo Overbeck no qual diz ter encontrado em Spinoza « um precursor ». Este novo entusiasmo em relação a um autor no entanto já conhecido talvez se explique por uma nova leitura, a do livro sobre Spinoza escrito por Kuno Fischer (Spinozas Werke und Lehre, de 1898). Nietzsche foi um leitor de Spinoza, de sua Etica, porém pelo viés de alguns de seus comentadores, em particular Fischer, um romântico neo-kantiano, mas também Goethe, que, como se sabe, muito influenciou Nietzsche, e era um grande admirador de Spinoza e do panteÃsmo que ele via em sua filosofia. Naquela carta a Overbeck, Nietzsche lista seis pontos de proximidade com Spinoza que, todavia, não são comuns a Nietzsche e aos românticos alemães. Isto é, curiosamente estas proximidades percebidas pelo próprio Nietzsche entre sua filosofia e a de Spinoza não parecem ter sido observadas pela influência da leitura romântica de Spinoza.
Este percurso das relações históricas entre as filosofias de Nietzsche e de Spinoza aponta para a questão das relações propriamente conceituais entre estas filosofias. O interesse filosófico sobre as proximidades entre Nietzsche e Spinoza – tanto históricas quanto conceituais – é de longa data. O primeiro estudo sobre o tema foi publicado apenas cinco anos após a morte de Nietzsche – Dernoscheck publicou Das Problem des egoistischen Perfektionismus in der Ethik Spinozas und Nietzsches em 1905. Os anos 1920 e 1930 viram várias publicações sobre as relações entre estas filosofias. Ao longo do século XX muitos livros, artigos e teses universitárias sobre o tema foram publicados. Notadamente, Deleuze fez da proximidade entre elas os pilares de sua própria filosofia da diferença.
O fato é que tanto Spinoza quanto Nietzsche realizaram a seu modo, e de forma exemplar, a vocação intempestiva de cumprir com zelo e radicalidade a missão filosófica de encarnar a má consciência de seu tempo.
Extemporaneidade que é o contrário do alheamento ou da alienação, mas representa um profundo concernimento com o presente, com a probidade intelectual e com o futuro do homem. Por isso, nos domÃnios da filosofia prática e teórica, as baterias de ambos foram assestadas justamente contra as camadas geológicas mais profundas do solo epistemológico sobre o qual se constrói a modernidade. Lembre-se, a esse respeito, a crÃtica à noção de substância, desde sempre matricial no Ociente, mormente em sua associação com o conceito de subjetividade; a negação de uma faculdade da vontade concebida como liberdade de arbÃtrio, bem como a posição absolutamente iconoclasta dos dois pensadores no que se refere ao binômio liberdade-necessidade. Há que se considerar também as complexas relações e afinidades temáticas entre amor dei e amor fati, de resto já trabalhadas na literatura secundária, que o projeto que ora se apresenta se propõe a focalizar à luz de novas pesquisas sobre o tema. Em ligação com isso, há que se considerar ainda a crÃtica radical ao imaginário religioso, com sua repercussão disruptiva no que respeita ao projeto polÃtico da modernidade, as respectivas concepções de filosofia como terapia da alma que, reatando com um tema herdado da tradição, subvertem-no a partir de suas bases mais profundas. O mesmo se pode observar quanto à recusa intransigente, por parte de ambos, do dualismo substancial, com a total revisão do conceito de alma, assim como da relevância filosófica da imaginação, dos apetites e afetos, que abriram novas perspectivas para a Psicologia e Psicanálise nos séculos posteriores.
Estas aproximações conceituais aparecem sintetizadas nos seis pontos listados pelo próprio Nietzsche no famoso cartão postal citado, de 1881 enviado a seu amigo Overbeck. Quais sejam : o conhecimento como um afeto, e o mais potente dos afetos (Erkenntnis zum mächtigsten Affekt zu machen); a negação do livre-arbÃtrio (er leugnet die Willensfreiheit); a negação das causas finais (er leugnet die Zwecke); a negação de uma ordem moral do mundo (er leugnet die sittliche Weltordnung); a negação do desinteresse (er leugnet das Unegoistische); e a negação do mal (er leugnet das Böse).
Nos propomos a estudar estes pontos não somente diretamente comparando estas duas filosofias, mas também e sobretudo separadamente numa e noutra filosofia, por um lado sob uma abordagem spinozista, e por outro sob uma abordagem nietzschiana, a fim de cotejá-las. A partir destes estudos, poderemos aprofundar e expandir nossas reflexões sobre o horizonte da imanência, da crÃtica à moral, da unidade corpo-mente, da não-separabilidade ou do não isolamento de todas as coisas, da afirmação da realidade, da perspectiva dos afetos, enfim, sobre concepções comuns a estas duas filosofias, que as atravessam e as colocam efetivamente à parte da linhagem tradicional da história da filosofia. Nos será necessário, incontornavelmente, colocar em questão até mesmo a própria idéia da filosofia como uma série de teses, para pensar a possibilidade de concebê-la como uma atividade ligada à afetividade e aos modos de se pensar.
Considerando tratar-se de pensadores que se situam respectivamente no inÃcio e no perÃodo de esgotamento da modernidade, suas problematizações abrem caminho para perspectivas e vertentes que permitem aferir em que condições se poderia tratar atualmente de um esgotamento do projeto moderno e de sua substituição pelos pós e ultra modernismos, assim como pelo pós-humanismo, em suas diversas vertentes. Desse modo, suas contribuições se apresentam como sendo de inestimável relevância e atualidade, não apenas na qualidade de momentos exponenciais da história da filosofia moderna e contemporânea, como também enquanto contributos indispensáveis para pensar criticamente questões e impasses com os quais se vê inevitavelmente confrontada, na atualidade, a reflexão filosófica. Aprofundar as relações históricas e conceituais entre as filosofias de Spinoza e Nietzsche nos permitirá, assim, apreender os pilares de um modo contemporâneo de pensar a filosofia para além da metafÃsica, da moral e do sujeito, isto é, de apreender as bases – ontológicas, éticas, estéticas e gnosiológicas – da atualidade do pensamento face à s questões da filosofia de todos os tempos, mas também face à quelas especÃficas da contemporaneidade.